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Musica e fantasia: curtas as sugestões de discos, filmes e livros.

Categoria: MPB

O fascínio dos tropicalistas pelos vampiros

Sabemos que, intelectualmente, o tropicalismo lançado por Gil e Caetano tentava ser uma continuação ou radicalização da antropofagia de Oswald (leia-se Ôsvaldi) de Andrade. No sentido de apropriar da cultura estrangeira, degluti-la para criar algo com nossa identidade.

O vampiro é uma imagem mais ambiciosa: além de absorver a essência vital de sua vítima, o vampiro a transforma em um igual. Isto lembra a poesia exportação dos concretistas: em vez do regionalismo exótico, influenciaremos estrangeiros com nossas ideias.

Por isso é que tropicalistas radicais, como Torquato Neto, Ivan Cardoso e Jorge Mautner, são fascinados com a ideia de vampiro.

Dois pra lá, dois pra cá, de Bosco e Blanc, com Elis Regina

Aldir Blanc e João Bosco foram grande dupla da MPB, que os tempos atuais parecem fazer esquecer. Radiografavam o universo da pequena classe média carioca. Grandes versos como “a ponta de um torturante/ bandaid no calcanhar” eram sua marca.

Sozinho, de Peninha, com Caetano Veloso

Os poetas antigos cantavam seus poemas, em vez de lê-los. Caetano tem essa habilidade; por isso, sabe destacar a poesia nas canções de outras pessoas. A canção Sozinho, de Peninha, mais do que valorizada, foi redescoberta, em sua interpretação.

Que loucura, com Sérgio Sampaio

Sérgio Sampaio, sambista sensível, homenageou Torquato Neto, poeta tropicalista, como melhor pode fazer: com uma canção sobre as internações do poeta no Hospício do Engenho de Dentro, então dirigido por Nise da Silveira, amiga das artes, discípula de Jung.

Além do horizonte, com Tim Maia e Erasmo Carlos

Dizem que o Brasil tem um ouvido musical que não é normal. Parece cena de vídeoclipe entrar em um supermercado pequeno e reparar que várias pessoas cantam junto com Erasmo e Tim Maia. O paraíso também se chama fraternidade.

Disparada, com Jair Rodrigues

Os versos “A morte, o destino, tudo/ estava fora de lugar./ Eu vivo pra consertar.”, de Disparada (letra de Vandré e música de Theo de Barros), aproximam o revolucionário do demiurgo (criador do universo): ambos trazem ordem ao caos.

Taj Mahal, com Jorge Benjor

Taj Mahal, um palácio e um túmulo muito bonito na Índia, é também um samba que levanta pistas de dança. A letra usa técnicas de estilo modernista. A melodia, que alguns achariam pobre, serviu de base para um rock.

Você, com Tim Maia

Tim Maia teve uma vida sofrida. Seu sucesso comercial foi injustamente menor do que seus muitos talentos. Por isso, é entusiasmante ouvir os versos “sou feliz/ agora”. Mesmo que depois a música retorne à tristeza que sempre o acompanhava.

Nós vamos invadir sua praia, com Ultraje a rigor

Nos episódios dos rolezinhos (jovens suburbanos entrando em massa em shopping centers elitizados), ninguém lembrou de Nós vamos invadir sua praia, música ícone da invasão da classe C aos espaços da antiga classe média. O pop não poupa ninguém.

Inútil, com o Ultraje a rigor

A inspiração costumava visitar a banda Ultraje a rigor. Em uma visita surgiu a letra que começa por “a gente somos inútil”, que define bem a insatisfação de letrados e iletrados com a realidade brasileira na década de 1980.